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CITER - Centro de Investigação em Teologia e Estudos de ReligiãoInício | Voltar | Imprimir

Linhas de Investigação

(II) Performatividades e Estéticas do Religioso (PER)

O objetivo principal desta linha de investigação multi e interdisciplinar consiste na tentativa de estudar, compreender e expor as formas estéticas e performativas em que o religioso se manifesta, sejam elas verbais ou não-verbais, e que o disseminam culturalmente. As expressões do religioso provocam no indivíduo efeitos múltiplos: elas induzem uma variedade de transformações e incitam diferentes conhecimentos, de natureza intelectual, performativa e sensível. Partindo desta suposição, o religioso será analisado através da sua capacidade de estimular ou influenciar esteticamente determinados processos cognitivos e sensoriais. Pretende-se entender concretamente a maneira como o religioso se transmite ou é transportado por comunicações linguísticas e mediações não-linguísticas, como é recebido no corpo através dos sentidos, e como atinge ou afeta os atores religiosos (e/ou não religiosos) nos seus diferentes contextos individuais e socioculturais. As configurações estéticas e performativas da transmissão do religioso e dos seus efeitos serão estudadas, por um lado, nas suas formas rituais institucionalizadas, e por outro lado, nas suas configurações mais individuais, tais como surgem na produção e na receção literárias ou artísticas. Focando principalmente o século XX e a contemporaneidade, a linha PER pretende repensar criticamente a relação ambígua e supostamente conflituosa entre religião e modernidade. No que diz respeito ao seu enquadramento epistemológico, a linha PER abrange membros de diversos campos académicos, tais como teologia, estudos de religião, literatura, estudos de cultura e estudos artísticos, sociologia, antropologia ou história de arte.

A linha PER está dividida em dois grupos:
(A) Hermenêuticas do Religioso no Espaço Literário (HermREL)
(B) Práticas, Imaginários e Mediações (PIM)

Cada grupo é coordenado por um ou dois investigadores responsáveis que definem os objetivos, as estratégias e os métodos das investigações correspondendo aos objetivos gerais do CITER. Para realizar os seus objetivos, a linha PER estabeleceu cooperações com vários instituições nacionais e internacionais.

(A) Hermenêuticas do Religioso no Espaço Literário (HermREL) 
O regime da modernidade determinou, nas sociedades ocidentais, uma «mutação acelerada» da fisionomia do religioso (D. Martin), que vem sendo amplamente observada como um dos seus traços proeminentes. O fenómeno da secularização que lhe está associado é explicável como um sistema de «passagem de significados» (Dalferth), de pessoas, bens, práticas, instituições, regras e ideias, do âmbito especificamente religioso para as esferas não religiosas da sociedade. Em relação ao papel da religião, a par de uma «privatização», onde a religião se torna uma questão do foro interno, sem a expressão pública de outrora, ocorreu uma «parcialização» (Dalferth) do religioso enquanto sistema social e código simbólico. Como defende Karl-Josef Kuschel, a chamada cultura religiosa «deslocou-se sempre mais para uma posição "lateral"». Ela que até meados do século XVIII tinha constituído uma unidade, mesmo que complexa, com a cultura europeia, passou a viver lateralmente, sob o signo da diferenciação e da alteridade. A verdade, porém, é que, no que respeita às hermenêuticas do religioso, o processo moderno de secularização não se esgota no paradigma de uma «história de subtração», mas pode também ser apresentado - Charles Taylor sugere que deve - como uma «história de aquisição». Todas estas questões são detectáveis no espaço literário e constituem-se num relevante motivo tanto para as hermenêuticas contemporâneas do religioso, como para as hermenêuticas da própria cultura.
A literatura constitui um observatório privilegiado das formas de existência sejam singulares ou colectivas. Ela detém uma reconhecida potencialidade «antropofânica» (Toutin) e representa um capital gnosiológico, uma espécie de malha fina operativa que Roland Barthes descreveu assim: «verdadeiramente enciclopédica, a literatura faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles... A literatura trabalha nos interstícios... A ciência é grosseira, a vida é subtil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa». A literatura como corretor de distância e dispositivo de visão, traços que fazem dela uma poderosa «lente fotográfica» (Proust) para interpretar o essencial da experiência humana, suas imagens, processos de consciência e enigma. Mas o «espaço literário», como recorda Blanchot, não é um simples decalque do mundo: ele não pressupõe um significado objetivo para a representação da realidade, mas uma rede plural de significados («eu sou muitos», dizia Pessoa) e de possibilidades, e simultaneamente um poder de representar pela ausência e de manifestar pelo distanciamento, tornando visíveis correlações invisíveis. A teologia e os estudos de religião, por sua vez, têm com a literatura uma relação genética. Enquanto dispositivo hermenêutico, a teologia e os estudos de religião postularam, desde o início, uma dicção claramente literária, indissociável não só da biblioteca que reúne os chamados textos sagrados como da interpretação crítica das várias performatividades e mediações do religioso. E, por isso:
i) o primeiro âmbito do nosso trabalho será o tratamento da relação teologia/estudos de religião e literatura no interior das próprias disciplinas, abordando as textualidades que lhes servem de objeto, a natureza literária do seu discurso e do conhecimento que ela constrói. As religiões dão-se a conhecer nas textualidades que gerem e produzem: a sua revisitação crítica e escrutínio científico são hoje uma ferramenta cultural de grande alcance.
ii) o segundo âmbito tomará a literatura como «exterioridade», recuperando o sentido desta categoria em Levinas. «Exterioridade» é a modalidade em que a alteridade se revela, não pertencendo ao mundo do Mesmo e resistindo a ele. A relação a instaurar não é, por isso, do regime da posse, mas do diálogo. Ou, como aponta Maria Gabriela Llansol, «do encontro inesperado do diverso». É neste horizonte multimodal e transdisciplinar que abordaremos as hermenêuticas do religioso no espaço literário.

(B) Práticas, Imaginários e Mediações (PIM) 
A década de 90 foi marcada por remodelações do conceito de secularização, enquanto modelo hegemónico no estudo da religião no contexto da modernidade. Em diversos âmbitos dos Estudos de Religião se sublinhou que o conceito se tinha tornado como que uma teoria da religião, legitimadora das narrativas da modernidade. Algumas revisões críticas apontaram que a hegemonia dessa perspetiva sobre a religião conduziu a investigação, especialmente nas sociedades do Atlântico Norte, a um distanciamento face ao religioso «a fazer-se» (A. Piette), tanto nas suas formas mais objetivas, que descrevem o religioso instituído, como nas diferentes configurações que se descobrem num regime de disseminação cultural. Na linha desta revisão crítica, neste grupo privilegia-se uma perspetiva sobre a religião que valoriza a sua criatividade própria, ultrapassando a sua redução a um reflexo de estruturas sociais ou a um repositório de doutrinas. O anglicismo performance pode apresentar usos diversos, em vários contextos disciplinares. Nas estratégias privilegiadas por este grupo de investigação, o conceito projeta uma dupla orientação programática, entre o fazer e o agir:
i) Desenvolve-se um particular interesse pelo religioso enquanto «fábrica do sensível» (J. Rancière). Ultrapassando uma tendência intelectualista que reduz o crer a objetos discursivos, esta orientação valoriza uma aproximação compreensiva aos universos do «crer» enquanto «fazer» (J. Scheid). Nas religiões, mesmo enquanto se constituem como tradições espirituais e escriturísticas, as dinâmicas do crer e as crenças descobrem-se num registo múltiplo: o que se faz, como se faz, onde se faz e quando se faz (D. Morgan). A forte vinculação entre crer e fazer descobre-se em constelações de materialidades e experiências, que a ação ritual pode condensar, mas não saturar. Neste domínio, o visível, o tocável, o dizível, o audível, o fazível, e suas relações com os imaginários mobilizados, descrevem a paisagem religiosa. Estas «maneiras de fazer» (M. Certeau) dizem respeito tanto às diversas mediações artísticas, como às mediações que dão corpo ao religioso corrente, inscrito no quotidiano doméstico e institucional - uma ecologia de materiais que inscreve o religioso nos processos de transmissão cultural. Mesmo os arquivos escriturísticos, centrais em muitas tradições religiosas, podem ser lidos como «artefactos», na medida em que as estratégias de investigação descubram esse corpus e seus códices na sua articulação com a experiência crente, inscritos numa história de transmissão - mobilizando diferentes «mediasferas» (R. Debray) - e reapropriados como memória operativa para o presente (M. Halbswach).
ii) Investigar sob o signo da performatividade, implica analisar os fenómenos religiosos a partir da ótica da ação. A performance encontra no corpo o seu principal instrumento. Mas esse corpo é individual e social. E os palcos podem ser artísticos e sociais. À investigação interessam pois, os atores (ou agentes), tanto no seu movimento de participação como na sua experiência de estranhamento (ou distanciação). Quando se considera o campo religioso enquanto cena ou drama social (Benjamin, Goffman, Turner, Deleuze), o crer descobre-se como competência para a interação (e para interlocução) e os crentes são compreendidos como atores que se inscrevem numa linhagem crente, procedendo a operações de moldagem que fazem da tradição recebida um «estilo» (Ch. Theobald). Esta direção passa pela atenção aos atos de linguagem em que as relações são transformadas pela enunciação («dizer é fazer», no sentido de Austin), mas também pela apreciação dos contextos em que a ação é resultado da cooperação e da disputa (F. Barth). Nesta linha, Certeau enfatizou a necessidade de uma análise polemológica da cultura, caracterizada como instrumento de compreensão dos conflitos e dos acordos de compatibilidade e compromisso, tendo em conta os limiares simbólicos mobilizados - esta via é importante para compreender a pluralidade interior a uma religiosfera. A memória religiosa pode ser apropriada como instância crítica (J. B. Metz), num jogo complexo entre memorar e esquecer (P. Ricœur). Nesta perspetiva, torna-se necessário, nos itinerários de investigação, considerar os próprios atores como cointerpretes.



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